quinta-feira, 14 de março de 2013

ILUSTRES PECADORES - Pedro, o líder


Por Orlando Lima Jr.
Pedro foi um dos mais ilustres pecadores ao qual esta terra teve a honra de empoeirar os pés. Considerado primeiro líder da igreja de Cristo, este personagem inconstante e temperamental, não por acaso, reuni atributos que tornam sua escolha apaixonadamente interessante. Não que me atreva a adentrar no terreno inefável dos critérios das escolhas divina, apenas observo que Pedro não foi escolhido líder apesar dos seus muitos defeitos, mas principalmente, por causa destes.

Durante todos aqueles anos em que caminhava com Cristo, Pedro mais de uma vez deu mancadas e foras onde revelava a todos os seus irmãos suas falhas de caráter, seu temperamento irascível, seu desejo por deferência, sua tendência a falar demais e precipitadamente, sua ortodoxa religiosidade e sua preocupação com as opiniões alheias.

Diante dos critérios de moral, conduta e competência sob os quais as pessoas são promovidas a posições de liderança, a escolha desta pedra demonstra o quanto Jesus valorizava o histórico moral e curricular de alguém. A escolha de pessoas como Pedro, Moisés, Jacó, Davi, Sansão e outros tantos impostores que abrilhantam as histórias bíblicas descreve de diversas maneiras o escandaloso mistério da graça: o de que estar perdido é pré-requisito para ser achado, de que ser doente é condição para ser curado, e de que ser pecador é qualidade requerida para ser santo, e que, principalmente,  ‘aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus’ (Lc 16.15). Pronto. Este é o crivo pelo qual todas as coisas são julgadas. Viva isto e serás contado entre os seus!  É elevado entre os homens? Então não serve! Todo mundo quer? Então não serve! A mensagem da cruz de Cristo é uma apaixonante loucura onde Deus demonstra sua predileção pela escória. Onde Deus se coloca como a porção única e absoluta de retidão, inalcançável a qualquer criatura. Onde se faz necessário que minha falência revela o sublime amor de Deus.

Entretanto, Pedro não foi escolhido líder dos apóstolos e da igreja apenas por conta de sua invejável coleção de falhas morais. É aqui que vejo o terno cuidado de Cristo; Pedro foi escolhido pastor dos seus irmãos por que carecia ser pastoreado por eles. Cristo sabia que Pedro não ia muito longe sozinho, por isso não lhe deu nenhum encargo missionário. Sabia que Pedro precisava de pessoas na jornada. Que sua altivez deveria ser tradada no convívio com a comunidade a qual estava atado por ordem de seu Senhor, e que era estes mesmos que Cristo o dera para cuidar que seriam seus tutores. Pedro, a pedra, era uma ovelha que precisava de muitos pastores. O chamado de Pedro o colocava em um profundo e íntimo envolvimento fraterno com seus irmãos do qual ele não poderia fugir. Pedro, altivo, independente e impetuoso, perdera para sempre o direito de ir onde quisesse.

A escolha de Pedro carrega consigo mais um belo paradoxo da liderança cristã: além do já estabelecido de que o líder é o que serve e não o que é servido, líder não é o chamado para conduzir, mas para ser conduzido! O líder cristão tem, de maneira viva e insofismável, a própria corruptibilidade diante dos seus olhos, e sabe que fazer amigos discípulos e influenciar pessoas pode ser a maior das tentações. A pedra Pedro, o matuto pescador desprovido de qualquer elegância e eloquência, mostra, com isso, pouca disponibilidade de tornar-se um líder carismático e popular. Seu histórico de inconstância e tropeços, seu orgulho e altivez sucedidos por um profundo trauma em ter sido flagrado traindo justamente àquele a quem jurou lealdade ( que nunca lhe foi exigida ) constroem este ilustre pecador: um homem ferido, prostrado e lucidamente consciente de sua iminente falência, e ainda assim, perdoado e amado.

Pedro é o líder lesado pelas marcas da graça. É aquele que jamais ousaria bater no peito e citá-lo como exemplo de alguma coisa ( como, infelizmente, tornou-se comum na liderança em geral ), não porque não o quisesse ou num gesto de humildade e modéstia. Pelo contrário. É por constrangimento de, como em outras vezes, arrogar para si atributos que nunca serão seus. Ou por vergonha em ter que, mais uma vez, encarar o mestre, só que agora olhando no rosto dos seus irmãos.

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